terça-feira, 15 de novembro de 2016

Funcionários do Theatro Municipal do Rio podem parar




Sem salários
por Henrique MarquesPorto

Como já é do conhecimento geral, o Governo do Rio de Janeiro está em situação pré-falimentar. Se é que já não faliu. O desastre financeiro da administração Pezão/Dornelles é inconcebível se considerado o extraordinário volume de recursos recebidos pelo Estado nos últimos anos, por conta, sobretudo, das obras para a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas. O Estado e a Prefeitura nadaram em rios de dinheiro. Tão  logo terminaram os eventos os rios secaram misteriosamente. Assunto para os órgãos de fiscalização, incluindo a polícia.

Os funcionários públicos estão sem receber salários ou recebendo em pequenas parcelas. No caso do Theatro Municipal, integrantes da Orquestra, do Coro e do Ballet avisam que a anunciada paralisação não se trata de movimento grevista, mas falta de condições mínimas de trabalho. De fato, em muitos casos há dificuldade até de ir trabalhar por falta de dinheiro. 

Em comunicado a direção do TMRJ anunciou a suspensão da venda de ingressos para a ópera que encerrará a temporada deste ano, Janufa, de Leos Janacek. 

Leia abaixo a nota do Sindicato dos Trabalhadores em Entidades Públicas da Ação Cultural do Estado do Rio de Janeiro.

COMUNICADO IMPORTANTE


NOTA OFICIAL DO SINTAC – Sindicato dos Trabalhadores em Entidades Públicas da Ação Cultural do Estado do Rio de Janeiro – 14/11
Nota Pública sobre a paralisação das atividades na Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro

Em Assembleia Geral e Extraordinária convocada pelo SINTAC e as Associações dos Corpos Artísticos da FTM/RJ, realizada no último dia 14 de novembro de 2016, os servidores dessa Casa, reunidos, decidiram que, devido ao parcelamento do salário do mês de outubro, e a ausência de previsão de pagamento integral do referido pagamento, paralisar as atividades artísticas, a partir de 16 de novembro, caso não seja efetuado o pagamento integral dos salários.

As atividades técnico-administrativas, com escalonamento visando ao mínimo deslocamento dos trabalhadores desta fundação, até a regularização do referido vencimento, serão mantidas.

Esta decisão nos é extremamente difícil, pois desde o início desta crise temos nos esforçado para manter a programação estabelecida pela direção da FTM.

Entretanto, não se pode ignorar a situação anômala atual, em que grande contingente de servidores encontra-se impossibilitado de comparecer às atividades normais da Casa, devido à desorganização financeira causada pelos sucessivos atrasos nos pagamentos dos vencimentos pelo Governo do Estado, culminando com o parcelamento do último salário, referência Outubro de 2016.

Desejamos esclarecer que esta suspensão das atividades não é um movimento grevista reivindicatório, mas apenas a constatação de que não há, atualmente, condições mínimas de manutenção de toda a carga horária programada, dada a inadimplência do estado para com os servidores e funcionários.”

Rio de Janeiro 14 de novembro de 2016.
Pedro Ismael de Oliveira Neto – Presidente da  Associação do Coro do TMRJ
Edifranc dos Santos Alves – Presidente da ACOBATEMURJ / Associação do Ballet do TMRJ
Jesuina Noronha Passaroto – Presidente da AMOSTEMURJ / Associação da Orquestra do TMRJ
Pedro Ismael de Oliveira Neto – Presidente do SINTAC / RJ

terça-feira, 4 de outubro de 2016

“Lo Schiavo” no Teatro Municipal do Rio de Janeiro



 
Cena do segundo ato, da produção de 1999. Sylvia Klein (Condessa de Boissy)

 por Marcos Menescal 

A ópera “Lo Schiavo” de Carlos Gomes teve uma carreira peculiar. Se o célebre “Il Guarany”, a arrojada e consistente “Fosca”, a desafortunada “Maria Tudor” e o exótico “Condor”, tiveram as suas estreias no Scala de Milão; se o “Salvator Rosa”, depois da sua estreia no Carlo Felice de Gênova, ganhou todos os teatros da Itália, tornando-se uma das óperas mais populares daquele período; “Lo Schiavo”, considerado por muitos a mais bela das óperas de Carlos Gomes, por diversas razões, estreou no Teatro Imperial D. Pedro II do Rio de Janeiro (com o advento da República, rebatizado de Lírico), em 1889, e, ao que eu saiba, nunca foi cantado na Itália. Sua primeira montagem europeia, de escassa repercussão, deu-se em Berna, Suíça, mais de 80 anos após a estreia carioca. Talvez essas circunstâncias expliquem o fato dessa belíssima ópera não ser conhecida mundialmente.

“Lo Schiavo” foi sempre uma das favoritas do público brasileiro. No Municipal do Rio, foi a segunda ópera brasileira mais montada, depois do famoso “Il Guarany”.
Entre 1917 e 1972, foi levada em 21 temporadas, e cantada e regida por alguns nomes que hoje fazem parte da história da ópera no século XX.

Assim, já em 1917, a célebre Ninon Vallin interpretava a Condessa de Boissy. Nesse mesmo personagem, que se limita ao segundo ato da ópera, tivemos, em 1921, nada menos do que Toti dal Monte. Intérpretes célebres de Iberê foram Giacomo Rimini, Armando Borgioli e Enzo Mascherini. Ilara foi interpretada por Rosa Raisa, Gina Cigna, Margherita Grandi, Norina Greco e Elisabetta Barbato. Como Americo, tivemos Frederick Jagel, Angelo Mingheti e o grande Galliano Masini. Entre os regentes da ópera, destaca-se Gino Marinuzzi.

Destacaram-se também os cantores brasileiros Sylvio Vieira, Lourival Braga e Fernando Teixeira (Iberê); Adjaldina Fonetenelle, Ida Miccolis e Graciema Félix de Souza (Ilara); Roberto Miranda, Assis Pacheco e Alfredo Colosimo (Americo); Alma Cunha de Miranda, Diva Pieranti e Antea Claudia (Condessa). Os três regentes brasileiros dessa ópera no TMRJ foram Eleazar de Carvalho, Santiago Guerra e Edoardo De Guarnieri.

Em 1976, o Municipal, fechado para reforma, apresentou a ópera em forma de concerto no Teatro João Caetano, sob a regência de Eleazar de Carvalho.

Dessa data até 1999, “Lo Schiavo” esteve ausente do nosso teatro, retornando numa produção de Fernando Bicudo, que rodou por várias capitais brasileiras, com os corpos artísticos de Belo Horizonte.

A próxima montagem, a estrear no dia 21 de outubro, com direção de Pier Francesco Maestrini, regência de Roberto Duarte, e com Rodolfo Giuliani, Adriane Queirós, Fernando Portari, Claudia Azevedo, Saulo Javan, Leonardo Páscoa e Pedro Olivero no elenco, será a primeira a ser levada no TMRJ neste século.

Como se pode observar, as montagens de “Lo Schiavo” têm sido cada vez mais raras, o que é uma pena porque trata-se de uma verdadeira obra prima.

Abaixo, a lista completa das apresentações de “Lo Schiavo” no Teatro Municipal do Rio, com os seus regentes e com os intérpretes dos seus principais personagens.

1917
Iberê: De Francheschi
Ilara: Teresina Burchi
Americo: Carlo Hackett
La Contessa di Boissy: Ninon Vallin
Regente: Franco Paolantonio

1921
Iberê: Giacomo Rimini
Ilara: Rosa Raisa
Americo: Angelo Minghetti
La Contessa di Boissy: Toti Dal Monte
Regente: Gino Marinuzzi


Rosa Raisa, Gina Cigna (em ‘Isabeau’), Elisabetta Barbato (em ‘Lo Schiavo’) e Ida Miccolis (em ‘Jupyra’)


1936
Iberê: Armando Borgioli
Ilara: Gina Cigna
Americo: Aureliano Marcato
La Contessa di Boissy: Maria Sá Earp
Regente: Angelo Questa

1937
Iberê: Armando Borgioli
Ilara: Margherita Grandi
Americo: Galliano Masini
La Contessa di Boissy: Thea Vitulli
Regente: Angelo Questa
  
Armando Borgioli (em ‘Un Ballo in Maschera), Sylvio Vieira, Enzo Mascherini e Fernando Teixeira (em ‘Rigoletto’)

1938
Iberê: Sylvio Vieira
Ilara: Adjaldina Fontenelle/Nanita Lutz
Americo: Antonio Salvarezza
La Contessa di Boissy: Alma Cunha de Miranda/Thea Vitulli/Germana de Lucena
Regente: Edoardo De Guarnieri

1939
Iberê: Sylvio Vieira
Ilara: Adjaldina Fontenelle
Americo: Tomaz Filipetti
La Contessa di Boissy: Alma Cunha de Miranda
Regente: Edoardo De Guarnieri

1940
Iberê: Sylvio Vieira/Paolo Ansaldi
Ilara: Adjaldina Fontenelle/Carmen Gomes
Americo: Galliano Masini/Roberto Miranda
La Contessa di Boissy: Tita Ferreira/Haydée Brasil
Regente: Edoardo De Guarnieri/Santiago Guerra

1942
Iberê: Sylvio Vieira
Ilara: Olga Nobre
Americo: Tomaz Filipetti
La Contessa di Boissy: Rachel Souza Pinto
Regente: Eleazar de Carvalho

1943
Iberê: Sylvio Vieira
Ilara: Norina Greco/Maria Helena Martins
Americo: Frederick Jagel/Roberto Miranda
La Contessa di Boissy: Maria Sá Earp/Maria Augusta Costa
Regente: Eleazar de Carvalho

1945
Iberê: Sylvio Vieira
Ilara: Maria Helena Martins
Americo: Frederick Jagel/Roberto Miranda
La Contessa di Boissy: Maria Augusta Costa
Regente: Eleazar de Carvalho


Galliano Masini (em ‘Carmen’), Frederick Jagel (em ‘Simon Boccanegra’), Assis Pacheco (em ‘Otello’) e Alfredo Colosimo (em ‘Madama Butterfly’)


1949
Iberê: Paolo Ansaldi
Ilara: Mary Gazzi
Americo: Roberto Miranda
La Contessa di Boissy: Alaide Briani
Regente: Santiago Guerra

1951
Iberê: Enzo Mascherini
Ilara: Elisabetta Barbato
Americo: Assis Pacheco
La Contessa di Boissy: Diva Pieranti
Regente: Eleazar de Carvalho

1954
Iberê: Lourival Braga
Ilara: Wanda Sposito
Americo: Alfredo Colosimo
La Contessa di Boissy: Diva Pieranti/Helena Pimentel/Antea Claudia
Regente: Santiago Guerra

1957
Iberê: Lourival Braga
Ilara: Ida Miccolis
Americo: Alfredo Colosimo
La Contessa di Boissy: Antea Claudia
Regente: Santiago Guerra

1959
Iberê: Lourival Braga
Ilara: Ida Miccolis
Americo: Alfredo Colosimo
La Contessa di Boissy: Antea Claudia
Regente: Santiago Guerra

1961
Iberê: Paulo Fortes
Ilara: Maria Sá Earp
Americo: Alfredo Colosimo
La Contessa di Boissy: Diva Pieranti/Lysia Demoro
Regente: Santiago Guerra

1963
Iberê: Lourival Braga
Ilara: Angelina Cosmo
Americo: Assis Pacheco
La Contessa di Boissy: Diva Pieranti
Regente: Edoardo De Guarnieri


Ninon Vallin, Toti dal Monte (em ‘Madama Butterfly’), Diva Pieranti (em ‘Il Guarany’) e Antea Claudia (em ‘La Traviata’)

1967
Iberê: Lourival Braga
Ilara: Graciema Félix de Souza
Americo: Constante Moret
La Contessa di Boissy: Antea Claudia/Célia Coutinho
Regente: Santiago Guerra

1969
Iberê: Lourival Braga
Ilara: Graciema Félix de Souza
Americo: Constante Moret
La Contessa di Boissy: Antea Claudia
Regente: Santiago Guerra

1971
Iberê: Fernando Teixeira
Ilara: Wanda Sposito
Americo: Constante Moret
La Contessa di Boissy: Antea Claudia
Regente: Eleazar de Carvalho

1972
Iberê: Fernando Teixeira
Ilara: Graciema Félix de Souza
Americo: Constante Moret/Zaccaria Marques
La Contessa di Boissy: Dea Escobar
Regente: Santiago Guerra

1976 (no Teatro João Caetano, em forma de concerto)
Iberê: Fernando Teixeira
Ilara: Graciema Félix de Souza
Americo: Assis Pacheco
La Contessa di Boissy: Niza de Castro Tank
Regente: Eleazar de Carvalho

1999 (Produção Ópera Brasil, com os corpos artísticos de Belo Horizonte)
Iberê: Louis Ottey/Sebastião Teixeira
Ilara: Nina Edwards/Aída Baptista
Americo: Stephen Mark Brown/Peter Riberi
La Contessa di Boissy: Maude Salazar/Rose Marie Todaro/Sylvia Klein
Conte Rodrigo: Mario Bertolino/Eliomar Nascimento
Goitacà: Luiz-Ottavio Faria/Maurício Luz
Gianfera: Francisco Neves/Leonardo Páscoa/Manoel Alvarez
Regente: Eugene Kohn

domingo, 18 de setembro de 2016

A Primeira Temporada Lírica Nacional do TMRJ


Nas fotos: Alma Cunha de Miranda, Reis e Silva, Sylvio Vieira, Asdrúbal Lima, José Perrota e Violeta Coelho Netto de Freitas. À direita, Gabriella Besanzoni.

por Marcos Menescal

Pode-se dizer que até a década de 1930 não havia a menor possibilidade de se empreender uma carreira lírica profissional no Brasil.

Sair do país, iniciar uma carreira na Europa e ser contratado por uma companhia que “fizesse a América do Sul” era, praticamente, a única possibilidade de se cantar nos nossos dois mais importantes teatros. Foi assim com Nícia Silva, com Zola Amaro, com Hedy Iracema, com a grande Bidu Sayão.

Podia acontecer que um ou outro, dentre os nossos melhores cantores, fosse requisitado para preencher alguma brecha nos elencos da temporada, quando necessário. Eventualmente, alguém com influência política ou com dinheiro suficiente, por diletantismo, bancava uma participação na companhia internacional que estivesse nos visitando. Para dar um exemplo, em 1925, a “socialite” Bebê Lima Castro cantou a ‘Lucia di Lammermoor’ com Mingheti, Viviani e Pasero, no Municipal do Rio, com êxito duvidoso.

O quadro começou a mudar no início da década de 30, quando o Municipal do Rio levou à cena algumas óperas com os estudantes da Escola de Canto do Teatro, em que participaram alguns nomes que vieram a fazer carreira profissional nos anos subsequentes.

Em 1934 foi a vez da estreia brasileira da ‘Maria Tudor’ de Carlos Gomes, esquecida desde a sua desastrosa estreia no Scala de Milão, em 1879. Nessa ocasião cantaram Reis e Silva, Carmen Gomes, Antonieta de Souza e Asdrúbal Lima, sob a regência de Mignone. Interessante é que este ainda pouco experiente elenco cantou as primeiras récitas da ópera, sendo depois substituído por grandes celebridades da época, como Gina Cigna, Ebe Stignani, Victor Damiani e o maestro Panizza.

Mas a cartada definitiva foi dada por Gabriella Besanzoni, o célebre mezzo soprano italiano, então retirada no seu suntuoso palacete do Parque Lage.

Em 1937, a Besanzoni reuniu todos os cantores brasileiros à disposição e montou a primeira grande temporada lírica nacional, levando ao palco 17 óperas completas, com elencos variados, em que despontavam os sopranos Violeta Coelho Netto de Freitas, Alzira Ribeiro, Thea Vitulli, Abigail Parecis, Alma Cunha de Miranda, Ruth Valadares Corrêa, Alaíde Briani, Carmen Gomes, Nanita Lutz, Heloisa de Albuquerque e Germana de Lucena; os mezzo sopranos Julita Fonseca, Marion Matthaeus, Anita Fitipaldi e Ana Maria Fiuza; os tenores Reis e Silva, Machado Del Negri, Marcel Class e Roberto Miranda; os barítonos Asdrúbal Lima, Ernesto De Marco e Sylvio Vieira, e os baixos José Perrota, Lisandro Sergenti e João Athos, entre muitos outros cantores.

Personagens principais foram interpretados, em diferentes récitas, por até cinco diferentes cantores. Algumas participações foram bastante inusitadas, como a da vedete Margarida Max, em ‘Tosca’, ou a da cantora de música folclórica Dilú Melo, em ‘La Bohème’ (Musetta). A intenção, ao que parece, era dar o máximo de oportunidades, e testar e revelar o maior número possível de cantores válidos.

O fato é que essa primeira experiência alcançou um grande sucesso de público e, pelas décadas seguintes, prosseguiram as temporadas nacionais, com absoluta regularidade, revelando grandes nomes de saudosa memória como Diva Pieranti, Ida Miccolis, Assis Pacheco, Paulo Fortes e tantos outros.


Acho que não seria exagerado afirmar que devemos à iniciativa da grande Besanzoni o primeiro esforço no sentido da possibilidade de uma verdadeira atividade artística, profissional e regular, para os cantores líricos do Brasil.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Um encontro com Lourival Braga




por Henrique Marques Porto

Ao longo da vida todos vivemos experiências que são únicas, que só nós as vivemos. Sozinhos ou com alguém. É o caso dos encontros fortuitos, sempre marcantes. Se um dos dois parte deste mundo doido fica-se sozinho, guardião solitário de um registro, de uma conversa, de uma lembrança ou de um simples fragmento de memória. Alguns deixam que a memória se dissolva no correr dos dias, cada vez mais rápidos. Ela, a memória, deixa, então, de ser coisa real e vaporiza-se, vira coisa para sempre esquecida, como um arquivo de computador que não se pode mais recuperar.

Não é o caso de quem escreve. Prefiro guardar bem guardadas as memórias, porque acredito que somos a memória que temos. Mas, jamais como relíquia condenada ao mofo. Isso tudo para dizer que o melhor que fazemos é contar histórias. O leitor saberá o que fazer com elas.

Um dia encontrei, por acaso, com Lourival Braga, e acho bom contar logo. Foi numa tarde nos primeiros meses de 1970 –março ou abril-, na Rua do Passeio, na calçada colada ao Passeio Público, em direção à Rua Santa Luzia.

Lourival Braga foi barítono dos bons. Sentia-se bastante confortável no repertório verdiano, mas enfrentava os papéis do verismo com valentia e a mesma qualidade. Dele pode-se dizer que era quase um intuitivo. No entanto, o que lhe faltava em refinamento técnico era plenamente compensado por um talento e uma musicalidade enormes.

O encontro com Lourival aconteceu a uns três ou quatro dias da estreia de um “Othello”, no Theatro Municipal. Assis Pacheco foi o Mouro –artista múltiplo, foi, também, cenógrafo, diretor de cena e figurinista; Marisa Mariz foi a Desdemona. Lourival cantou o desafiador Yago –um papel dificílimo que os barítonos medrosos, de vozes frágeis e sem temperamento dramático devem, por prudência, evitar. Não era o caso de Lourival Braga.

Logo depois de passar pela entrada do Passeio Público, quem eu vi? O próprio. Lourival caminhava na mesma calçada e na minha direção, a uns dez ou quinze metros. Estava sério, cenho franzido, cabeça baixa, dizia coisas para ele mesmo, gesticulava, balançando o braço esquerdo e abrindo as mãos, e apontando o indicador da mão direita para uma direção imprecisa, como quem faz uma advertência a alguém.

Pensei: “-Ih! O Lourival está incorporando o Yago! Ou então ficou maluco e deu para falar e gesticular sozinho pela rua...”

Apressei o passo e o interrompi. Coloquei a mão em seu peito e saudei:
“-Lourival!”

Ele me olhou por um instante, me reconheceu, mesmo estando eu com os cabelos nos ombros, como se usava então, saiu do transe e me abraçou fortemente e com carinho. Lourival era corpulento - mais alto do que eu, que ainda tinha uns centímetros para crescer- e tinha um jeito característico de andar, porque a perna esquerda era levemente arcada.  

-Ô, meu filho! Como você está? Que bom te ver! Pôxa, eu fiquei muito triste quando soube do falecimento do seu pai (meu pai falecera uns meses antes). Ele era muito meu amigo e sempre me deu muita força. Você me desculpe não ter ido ao enterro, mas eu não podia mesmo, estava com compromissos. E sua mãe e seus irmãos? Estão bem? Precisam de alguma coisa?

Lourival era assim: homem simples, afetivo, carinhoso, atencioso. Não tinha nada da afetação que acomete algumas estrelas e estrelinhas, falsas ou verdadeiras.   

Para mudar de assunto e deixar lembranças tristes para trás, pergunei:
“-E o “Othello”? Como é que está esse Yago? Eu não vou perder esse, hein! Já combinei de ir com minha namorada, que vai à ópera pela primeira vez."

“-Ih, rapaz..Eu nem estou pensando em Othelo, nem em Yago, nem em ópera nenhuma. Meu dia está uma merda. Tive um aborrecimento enorme no serviço. Na verdade uma briga feia com um sujeito que torrou meu saco. E eu não tenho paciência para frescura. Dei logo um esporro e a situação ficou feia. Estou com a cabeça cheia e não consigo pensar em outra coisa...”

Pausa para uma breve reflexão.

Ele não contou detalhes do incidente, nem era o caso, mas enquanto ele falava eu caí das nuvens e, estupefato, fiquei pensando: primeiramente, aos diabos com o cara que brigou com o Lourival numa semana de “Yago”! E mais importante: como era possível um artista da dimensão do Lourival Braga estar “no serviço”, e ter brigado lá, na quase antevéspera de uma estreia importante, na qual ele teria que dar conta de um dos mais difíceis personagens de Giuseppe Verdi e de todo o repertório operístico, um desafio verdadeiro para qualquer grande cantor? Que “serviço”, santo Deus? Se não me engano, Lourival era funcionário da Casa da Moeda. O trabalho ou “o serviço” do Lourival era cantar ópera! E só e apenas isso! Katz! Naquele dia, nos anteriores e nos dias seguintes ele deveria estar repassando a partitura, testando e refinando fraseados, estudando detalhadamente cada cena, etc.

Que fique a lição. Lourival Braga era grande, mas seria muito maior se pudesse se dedicar apenas à sua arte, ao invés de ter que dividi-la com sei lá quantas horas semanais de trabalho num escritório, gastando voz, energia e talento com outro trabalho, infelizmente indispensável para seu sustento e de sua família.   

A dura realidade do artista lírico brasileiro, tantas vezes fantasiada com brilhos falsos, caiu sobre mim naquela tarde de 1970 com todo o seu peso quase insuportável. Eu já sabia então que não era nada fácil a vida dos nossos artistas líricos, que outros tinham outros empregos e que muitos ficavam pelo caminho exatamente por causa dessas dificuldades, e da falta de apoio e de estímulo ao profissionalismo e à dedicação integral à arte. Mas não imaginava que dificuldades dessa ordem (para muitos, ainda hoje é essa a realidade) atingissem, também, um artista da grandeza de Lourival Braga, um barítono consagrado que já tinha conquistado o respeito do público do Rio, de outros Estados e até do exterior. Aqueles dez ou quinze minutos de conversa foram uma lição para a vida toda. Fim da pausa. 

-Pôxa, que chato isso, Lourival...” –comentei sem saber bem o que dizer, embora a vontade que deu foi fazer algum discurso inflamado, que não teria nenhum efeito.

“-Ah, mas não tem problema, não! A gente dá um jeito.” –retrucou sorridente.
“-Você vai lá ver?”
“-Vou estar lá, com certeza! Não vou perder o seu Yago!”
“-Então a gente se vê lá no teatro!”

E se despediu sorridente, com novo abraço e recomendações à família. Lá se foi o Lourival ser mais uma vez Yago na vida.

Uns três dias depois, numa noite de sexta-feira, fui para o teatro preocupado. Toda a minha atenção estava voltada para o Lourival. O que iria acontecer? Minha condição como público era única. Apenas eu sabia bem e inteiramente o pequeno drama e as encrencas por que passara o Yago daquela noite nos últimos dias. Sua família e amigos próximos, a começar por sua esposa Renate sabiam, é claro. Exceto, talvez, sua filha Angela, que era bem menina. Mas ficaram sabendo depois de mim, que o encontrei, por acaso, gesticulando e falando sozinho na rua, minutos depois de um grande aborrecimento.

‘Son scellerato 
perchè son uomo; 
e sento il fango originario in me. 
Si! questa è la mia fè!’ 

A raiva talvez faça bem a quem vai interpretar o Yago, pensei com meus botões. No entanto, tinha razões para estar meio tenso na expectativa do desempenho do Lourival.

Mas, quando ele mostrou seu cartão de visitas no È infranto l'artimon!, eu já pude relaxar. A frase é pequena e não antecipa muita coisa, mas a diferença estava na emissão da voz e na postura em cena. Lourival estava em seu elemento e chamou as atenções para sua figura, que dominou rapidamente o palco. Cassio era ninguém mais, ninguém menos do que Benito Maresca.

Posso contar sem um pingo de mentira ou exagero: Lourival Braga cantou como nunca naquela noite! Colocou o espetáculo no bolso, como se diz no jargão. Estava livre, leve e solto no palco, o que foi confirmado no difícil “Brindisi”, que já derrubou muitos barítonos. A voz fluía redonda e cheia, e preenchia cada canto do grande espaço. Lourival estava tão seguro que até ousou improvisar cenas, expressões faciais e gestos, e a teatralidade nunca foi o seu forte. Foi uma representação inesquecível. Sobretudo, tivemos um Yago irrepreensível. Ele voltou a cantar o papel e foi muito bem, mas não como naquela noite.

Teria sido um milagre ou um agrado dos deuses dos teatros, pensaria alguém. Afinal, é quase impossível obter uma grande performance com pouquíssimos ensaios, sem tempo para estudar e numa semana cheia de problemas pessoais. Pois, a atuação de Lourival Braga naquela longínqua noite de 1970 não foi produto de milagre, tampouco presente dos deuses. Foi talento mesmo! Aquele tipo especial de talento que é capaz de superar barreiras e adversidades de todo tipo, entrar num palco, conquistar o público e deixar as pessoas mais felizes. Os problemas não chegam nem perto do camarim e das coxias. Não entram no teatro. Só os grandes artistas têm essa rara capacidade, a de concentrar em si a magia do palco e transmiti-la ao público. Lourival Braga sabia fazer isso.


Lourival Braga nasceu em 03 de novembro de 1920 e faleceu em junho de 1978, vítima de um acidente automobilístico, depois de cantar o Amonasro numa “Aída”. Seus restos estão no Cemitério do Catumbi. Sua presença está por aí, para quem quiser conhecer um grande artista.  


Lourival Braga - "Credo" - Othello, Verdi


sábado, 27 de fevereiro de 2016

Os 50 anos de carreira de Paulo Fortes


Paulo Fortes, na primeira foto, com Edna D'Oliveira e, ao fundo, Marcelo Coutinho, José Galliza e Marcos Menescal; na segunda com Nadja Daltro, Neti Szpilman e Silvia Tessuto. Gianni Schichi, 1995, Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

por Marcos Menescal 

Em 1995 o grande barítono brasileiro Paulo Fortes completou 50 anos de carreira. Havia estreado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1945, aos 22 anos de idade, como Germont em “La Traviata”, depois de longo e rigoroso treinamento na classe de Gabriella Besanzoni, o célebre mezzo soprano italiano.

Naquele ano Paulo protagonizou o “Gianni Schicchi” em seis récitas memoráveis do “Trittico” de Puccini no Municipal. Estava escalado para cinco récitas de “La Traviata”, que seria levada logo depois por uma companhia independente, quando comemoraria oficialmente o seu cinquentenário interpretando a mesma ópera da sua estreia.

A “Traviata” foi levada como estava prevista, mas as récitas de Paulo, por motivos que aqui não cabe recordar, foram canceladas.

Sabendo que a comemoração havia sido frustrada, o diretor do Teatro naquela época, Emílio Kalil, chamou Paulo para uma conversa e lhe perguntou:

“-Em que data foi a sua estreia?”
Paulo respondeu: “-Em 5 de outubro de 1945.”

“Ótimo!”, disse Kalil após consultar a agenda do Teatro, “Temos o dia 5 de outubro livre. Vamos fazer a sua festa nesse dia.”

Passaram a combinar o programa. Aliás, combinar é força de expressão porque Kalil deixou o programa inteiramente a critério de Paulo.

Assim, no dia 5 de outubro de 1995, com o Teatro abarrotado de gente, os cantores Céline Imbert e Eduardo Alvares, com o Maestro Alessandro Sangiorgi à frente da orquestra, abriram a noite cantando as árias e o dueto final do “Andrea Chénier”.

Iniciou-se então o segundo ato da “Traviata”. Depois da aria inicial, cantada pelo tenor Rubens Medina, e do breve diálogo que se segue à aria, Paulo entrou em cena.

Palavras não podem descrever (ou pelo menos eu não conseguiria) a reação do público à entrada do seu adorado artista. Um aplauso que parecia interminável, por vários minutos, com gritos entusiasmados de “bravo”.

Restabelecido o silêncio, Paulo fez soar a sua belíssima voz, absolutamente fresca e conservada apesar dos seus 72 anos de idade, com as palavras: “Madamigella Valéry?”, respondidas pela voz aveludada do soprano Ruth Staerke (Violetta).
O ato prosseguiu, sob aplausos delirantes: dueto, encontro com o filho, e o grande momento: a aria “Di Provenza il mare” que atestou a grandeza intacta do homenageado.

Depois do intervalo, foi dado o “Gianni Schicchi” completo com Paulo, Edna D’Oliveira, Vincenzo Cortese e um vasto elenco (do qual eu participava no papel de Gherardo).

Terminada a ópera, comparecemos todos ao proscênio onde Paulo Fortes foi homenageado e condecorado pela direção do Teatro e, em seu belo e emocionado discurso de agradecimento, homenageou Alaide Briani e o Maestro Santiago Guerra, respectivamente sua primeira Violetta e seu primeiro regente, ambos instalados nos dois camarotes de boca de cena.

Assim Paulo Fortes comemorou o seu cinquentenário e recebeu suas merecidas homenagens, deixando em todos os presentes a certeza de terem participado de uma das noites de ópera mais emocionantes da história do Teatro Municipal.



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O reencontro do Rio de Janeiro com Mozart



As Bodas de Fígaro

Récita de 22 de novembro de 2015
Fígaro .......................... Felipe Oliveira
Susana .............................. Carla Cottini
Conde de Almaviva ...... Manuel Alvarez
Condessa ...................... Marina Considera
Cherubino ........................ Malena Dayen
Bartolo ............................. Savio Sperandio
Marcelina ....................... Beatriz Pampolha
Basilio ...............................Cleyton Pulzi
Antonio ........................... Frederico de Oliveira
Barbarina ...................... Luiza Lima
Don Curzio .................... Guilherme Moreira
Regente: Tobias Volkmann

por Henrique Marques Porto

Bastante feliz a ideia de montar As Bodas de Fígaro, de Mozart, para encerrar a temporada lírica de 2015 e anunciar a programação de 2016 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Mais feliz ainda foi a opção do TMRJ de convocar elenco nacional e jovens cantores para mostrar ao público carioca essa pérola de Mozart. Qualquer teatro de ópera sério necessita de elenco e repertório próprios para só então pensar em voos mais altos, como a contratação de estrelas internacionais. Temos bons cantores e eles foram chamados. É esse o caminho, sobretudo para vencer em parte o obstáculo da escassez de recursos financeiros. João Guilherme Ripper e André Cardoso acertaram em cheio. Mostraram que é possível produzir espetáculos de qualidade com poucos recursos. Conquistaram a confiança do público carioca. Mas, há muito ainda por fazer. Eles devem estar conscientes disso, e de que não podem decepcionar os cariocas.   

Le Nozze di Figaro é uma ópera que delicia o público -inclusive quem conhece pouco e está começando a se interessar por ópera- com uma sucessão de inspiradíssimas árias, duetos, tercetos, sextetos, ensembles. Até quem nunca ouviu As Bodas de Fígaro se surpreende ao reconhecer árias e temas musicais. "Questa poi la conosco purtroppo..." -deve ter pensado alguém na vesperal de domingo, repetindo a brincadeira feita pelo próprio Mozart, que incluiu uma citação das Bodas na cena final do Don Giovanni, sua composição seguinte.

As Bodas de Fígaro é uma comédia que Mozart controla de forma genial. Não deixa que a ópera descambe para a bufonaria e coloca freios em quaisquer intenções caricatas. Inclui passagens românticas, como em “Dove sono”, ária da Condessa, e até dramáticas como em Hai già vinta la causa, ária de Almaviva, cujo clima antecipa o Don Giovanni.  Graça, sim; comicidade exagerada, jamais.

Aqui, cabe um comentário. Montar Mozart não é da tradição do público, dos regentes e dos cantores brasileiros. Nossa formação musical, desde o século dezoito, recebeu forte influência da ópera italiana e gerou um gosto especial por esse repertório. Mozart, que também compunha “ópera italiana” sempre esteve pouco presente nas programações ao longo do tempo, desde a “Casa da Ópera”, do empresário Boaventura Dias Lopes, dos tempos d’antanho –existiram duas Casas da Ópera, a primeira delas chamada “Ópera Velha”, teatro construído pouco antes de 1748. Mozart aparece em 1821, no Teatro São João, com o Don Giovanni.  

Uma geração inteira de ótimos cantores brasileiros, formados a partir dos anos 1930, dedicaram-se pouco ou quase nada a Mozart. Um desperdício, se pensarmos em vozes como as de Violeta Coelho Netto de Freitas, Ida Micollis, Aracy Bellas Campos, Clara Marise ou Leda Coelho de Freitas, para ficarmos apenas em poucos exemplos de vozes femininas. No centro do nosso repertório tradicionalmente reinam Verdi, Puccini e Rossini. De modo algum é um “defeito”, como alguns críticos já chegaram a apontar. É expressão da nossa formação cultural, um processo dinâmico e sempre em evolução. Atualmente, o público sente a falta de compositores como Mozart, Wagner, Strauss e outros. O problema é que ficamos tanto tempo sem óperas que títulos tradicionais como Andrea Chénier, La Gioconda e até La Traviata serão certamente novidades absolutas para o público, principalmente para os jovens, que ontem alegravam a plateia e os balcões para receber Mozart.   

Os solistas de As Bodas de Fígaro são, em sua maioria, cantores jovens e que estão ainda no início de suas carreiras. A eles junta-se o maestro Tobias Volkmann, ainda em início na direção de óperas.

O espetáculo

Casa cheia na primeira vesperal da temporada de As Bodas de Fígaro, que ficará em cartaz até o dia 29 de novembro. Já na conhecida abertura da ópera podemos tomar o pulso do espetáculo, em peça de execução difícil, cujo primeiro desafio fica a cargo dos arcos, naquele esvoaçar de notas rápidas e sorridentes que anunciam a comédia. Na tarde de ontem, um primeiro destaque foi, sem dúvida, para a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, que se saiu magnificamente bem nas delicadezas e sutilidades da música de Mozart, com o mérito de manter a qualidade ao longo de toda a ópera. Uma prova de que a Orquestra da casa deve ser valorizada. Ela e o Coro são a alma do velho teatro. Seu lugar não é apenas no fosso, mas no palco. A propósito, é a Orquestra e o Coro do TM que abrirão a Temporada de 2016 com a Missa Solemnis, de Beethoven.  

Tobias Volkmann foi regente atento, de gestual vibrante, mas sem afetações ou exageros. Abrigou-se na segurança de uma leitura clássica da partitura, o que foi boa e prudente opção. A aparente simplicidade da música de Mozart pode ser perigosa para os regentes e intérpretes, principalmente para os que estão iniciando suas carreiras.

Entre os solistas, o público se encarregou de apontar os destaques da tarde/noite de ontem com a distribuição dos aplausos. Marina Considera, a Condessa, foi muito festejada. Bela voz, belo porte e ótima presença em cena. A ela se juntaram, no gosto do público, o ótimo Don Bartolo, de Savio Sperandio, a Susana, de Carla Cottini, o Almaviva, do mais experiente Manuel Alvarez, o Basilio, de Cleyton Pulzi, e o Cherubino, de Malena Dayen. O Fígaro de Felipe Oliveira também agradou, ainda que tenha demonstrado alguma timidez no início da ópera e revelado incômoda insegurança nos agudos, circunstância que não deve ter passado despercebida do público. Mas prevaleceu o conjunto, no qual ele se encaixou perfeitamente. Uma das graças de As Bodas de Fígaro é que não há um protagonista com maior destaque. O conjunto e o equilíbrio entre as vozes é o mais importante. Mozart parece indicar isso com precisão no final da ópera, com todos os personagens em ensemble substituindo o coro, numa das mais belas passagens de todo o repertório operístico. 

Atuações corretas e eficientes de Beatriz Pampolha, Frederico de Oliveira, Luiza Lima e Guilherme Moreira. 

Cenários simples, bonitos e muito bem concebidos e realizados por Nicolás Boni. A produção vem do Teatro São Pedro. A concepção tem o mérito adicional de acolher bem as vozes (algumas de pequeno volume), fechando as áreas de escape do som. O palco do Municipal do Rio continua sem ciclorama, inexplicavelmente retirado nos anos 1980. A nova direção do TM precisa fazer um esforço para recolocar o equipamento.

Direção cênica inteligente de Livia Sabag, com marcações descomplicadas e eficientes. Sabag entendeu muito bem as intenções de Mozart. E não é nada fácil dirigir a movimentação e o entra-e-sai constante de elenco numeroso.

Que essa Le nozze di Figaro traga bons presságios para a recuperação do Theatro Municipal e o futuro da ópera no Rio. Portanto, bem vindo Mozart! Que volte sempre.