terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Frábrica de ilusões. O gênero opereta pode ser bom, mas ópera é muito melhor.




por Comba Marques Porto


         Não fui assistir “A Viúva Alegre” e nem iria, mesmo que tivesse sido apresentada no contexto de uma boa temporada lírica. Eu não iria porque tenho cá minhas diferenças com as operetas. Contudo, venho acompanhando as manifestações dos artistas que participaram da montagem e minha reserva quanto ao gênero em nada impede que os parabenize e agradeça a todo o elenco -músicos, coristas e bailarinos - pelo empenho de fazer sempre o melhor pela arte, apesar de todas as dificuldades que enfrentaram. 

Em verdade, a montagem da “Viúva Alegre” veio a calhar justamente no momento em que anda tenso o clima criado ao longo deste ano entre a administração do TMRJ e o público em razão das inconsistentes desculpas para a (não) temporada de 2012, sem contar os problemas entre a direção e seus corpos estáveis, tal como vêm sendo noticiado por vários artistas através das redes sociais e mesmo na grande imprensa. Parece que Franz Lehár surgiu no cenário para amenizar os conflitos, para espairecer. Que seja.  (Continua)


A opereta, como gênero, foi originariamente concebida pelos franceses no século XIX. Consta que Jacques Offembach (1819/1880) foi o autor das primeiras operetas. Nasceu na Alemanha, mas cresceu, viveu e morreu em Paris. “Os Contos de Hoffmann” é a sua mais notória obra. Já o vienense Johann Strauss (1825-1899) – não confundir com Richard – é o autor de “O Morcego” (1874), a mais encenada entre mais de uma dúzia de suas partituras do gênero. O austro-húngaro Franz Lehár (1870-1948) entrou na história da música por sua “A Viúva Alegre”, cuja estreia deu-se em Viena, em 1905. Os citados compositores são exemplo de uma concepção musical tida, em tese, como variação da ópera, a partir do propósito de criação de partituras mais curtas, mais leves, recheadas de recitativos (trechos falados), libretos cômicos, tendo como matriz a ópera cômica francesa do Século XIX. 

Gosto não se discute. Então fico à vontade para torcer o nariz para o gênero. Prefiro os bons musicais da Broadway. A menor duração das operetas, para mim, não é critério que se leve em conta. Quando vi Tristão e Isolda pela primeira vez, ficaria no teatro se dissessem que, em seguida, começaria outra apresentação da obra. Quanto aos recitativos, prefiro os de Mozart, embora não sejam propriamente falados.  

Puccini e seu libretista Giovachino Forzano, com a ópera Gianni Schicchi, dão de dez nos franceses, alemães e austro-húngaros com suas operetas. É uma ópera curta, cômica, por sinal engraçadíssima, perfeito entrosamento entre música e teatro, bela e arrojada escrita musical para uma temática atemporal –a mesquinharia nas relações de família. 

Alguém disse em recente entrevista à imprensa que a opereta é um bom caminho para se chegar à ópera. Minha estatística não confirma. Dentre os amantes da ópera de meu círculo de familiares e amigos não há um que tenha chegado à ópera pelo atalho da opereta. Acho até que deve ser o contrário: quem começa pela opereta e gosta muuuiiito dificilmente chegará a amar a ópera. 

Toda vez que preciso escrever sobre ópera ou coisa que se apresente assemelhada ao gênero, consulto o mestre Zito Baptista Filho. O tema desta matéria era “o quanto não gosto de operetas”. Mesmo assim, fui ao “Ópera”, do Zito, embora achando que não ia encontrar nada. De fato, ele não inclui as operetas em sua obra. E faz todo sentido, pois os gêneros não se confundem. Mas há lá no índice onomástico (pgs. 699/705) uma referência a Franz Lehár, mencionado na página 418, onde o autor trata da ópera La Rondine. Faço questão de transcrever o que observa Zito sobre a quase opereta de Puccini:

“Giuseppe Adami, amigo, biógrafo e um dos libretistas do compositor, inicia o capítulo em que se refere à criação da ópera La Rondine (A Andorinha) com estas palavras: ‘Houve um quarto de hora em que Puccini pensou na opereta...’. Aconteceu que os diretores do Karltheater, de Viena, pediram ao músico que se ocupasse de um libreto escrito por Alfred Maria Wilner e Heinrich Reichart, colaboradores e argumentistas habituais de Franz Lehár. À primeira vista Puccini não se sentiu mal com a ideia de compor uma opereta, mas corria o ano de 1913. A que seria a Primeira Guerra Mundial ameaçava a Europa. Giacomo Puccini, de natural tendência pessimista, foi se desencantando com a perspectiva de criar um espetáculo alegre. Por fim, a eclosão da guerra entre a Itália e a Áustria cancelou de vez o projeto original, rompendo o contrato entre os editores e o compositor. Mas boa quantidade da música já havia sido escrita para a projetada opereta, música que se situava num plano intermediário entre a opereta propriamente dita e o drama. Não a tragédia, mas pelo menos o drama.  Chamado a prestar sua colaboração, Adami, libretista e mais tarde biógrafo de Puccini, refundiu a história e o músico decidiu que a obra se denominaria ‘comédia lírica em três atos’. (...) Aqui temos um Puccini algo diferente, um Puccini valsante, se assim podemos dizer. Na valsa (referindo-se a La Rondine), porém, não encontramos a alegria, a despreocupação, ou mesmo – para falar com franqueza – o toque de cinismo, de orgia estrepitosa do fim do século.”

          Sou de temperamento mais dado à alegria. Porém nem tudo que é humor me fala à alma. Sinto-me por demais carioca. Sou sobrinha de Agostinho Marques Porto, mestre do teatro de revista. Talvez me soe enfadonho o humor das operetas da velha Europa. Saio do teatro feliz e com vontade de cantar depois de ver uma boa “Tosca” ou mesmo a bela cena da morte de Mimi. Encanta-me a leitura da valsa por Richard Strauss em “O Cavaleiro da Rosa”.   

No mais, para ser franca, sinto a montagem de “A Viúva Alegre” neste momento como um recado um tanto cínico, ainda que por mera coincidência temporal. Uma invocação de alegria e de leveza que não combina com a situação aflitiva dos corpos estáveis do Theatro Municipal e com as preocupações do público quanto ao futuro da histórica casa de ópera do Rio de Janeiro. Tomara que a valsa de Lehár nos leve a dias melhores e uma boa temporada para 2013 seja em breve anunciada.

Um comentário:

  1. Parabéns por mais um ótimo texto, Comba - elegante, claro, preciso, gostoso de se ler. De operetas, só conheço 'O Morcego' em montagem com a Kiri Te Kanawa. Gostei da leveza e do humor, mas não sei lhe dizer se gostarei de outras. De ópera, posso lhe afirmar com certeza que gosto cada vez mais.
    Beijos.
    Helô

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